Antropologia jurídica no ensino do direito: caráter ambivalente da juridicização e teoria do multijuridismo através do caso concreto da Lei brasileira da biodiversidade
DOI:
https://doi.org/10.35295/sz.iisl.1818Palavras-chave:
Antropologia jurídica , interculturalidade, currículo cursos de direito, Lei brasileira da biodiversidade, juridicizaçãoResumo
Não obstante a importância da antropologia jurídica para a discussão do direito, a disciplina consta em apenas pequena parte das grades curriculares dos cursos, a nível global. Por isso, o objetivo é valer-se de um caso concreto, que facilmente atinja acadêmicos em seus diferentes níveis de formação, para colocar em evidência, de forma exemplificativa, a fundamentalidade da promoção dessa disciplina nos currículos dos futuros operadores do direito. O caso eleito é a Lei brasileira de acesso ao patrimônio genético e aos conhecimentos tradicionais associados (Lei da Biodiversidade). Ao analisar os aspectos considerados como questionáveis da norma, o artigo sublinha o fato de que ela constitui um exemplo concreto do caráter ambivalente do processo de juridicização e, em consequência, da importância da antropologia jurídica para identificá-lo. Como o artigo não apenas discute a importância desta última nos currículos, mas também ele próprio é desenvolvido à luz dela, inicialmente parte-se de como foi o processo que conduziu a que a antropologia contribuísse à discussão do direito. Em segundo lugar, os aspectos controversos da lei são trazidos. Na sequência, dois autores da disciplina são mobilizados: primeiramente, o Professor de antropologia jurídica da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) Orlando Villas Bôas Filho, sobre o fato de que, não raras vezes - e como exemplificado no caso concreto -, o processo de juridicização pode acabar por atender interesses contrários aos dos povos indígenas. Isto feito, mobiliza-se o autor francês do Laboratório de Antropologia Jurídica de Paris (LAJP) Étienne Le Roy e sua Teoria do Multijuridismo, estabelecendo-se relações entre ela e o caso concreto eleito, em diálogo com intelectuais/líderes indígenas. A metodologia seguida foi a sistêmica e a técnica de pesquisa baseou-se na revisão bibliográfica e interpretação de normas legais e decretos regulamentares.
Downloads
Estatísticas globais ℹ️
|
854
Visualizações
|
535
Downloads
|
|
1389
Total
|
|
Referências
Alliot, M., 1983. Anthropologie et juristique. Sur les conditions de l’élaboration d'une science du droit. Bulletin de liaison du LAJP [online], 6, 83–117. Disponível em: http://www.dhdi.free.fr/recherches/theoriedroit/articles/alliotanthropetjur.pdf
Caldas, A., 2004. La regulación jurídica del conocimiento tradicional: la conquista de los saberes. Trad.: L. Ariza. Bogotá: Instituto Latinoamericano de Servicios Legales Alternativos (ILSA).
Commaille, J., 2023. L’esprit politique des savoirs. Le droit, la société, la nature: une mise en perspective. Paris: Éditions de la Maison des sciences de l’homme. DOI: https://doi.org/10.4000/books.editionsmsh.61222
Coordenação e revisão do Ministério Público Federal, 2014. Nota Técnica: Objeto - Projeto de Lei n. 7.735/2014 [online]. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1277505&filename=Tramitacao-PL%207735/2014
Eberhard, C., 2002. Para uma teoria jurídica intercultural: o desafio dialógico. Direito e democracia, 3(2), 489–530.
Eberhard, C., 2010. Le Droit au miroir des cultures. Pour une autre mondialisation. Paris: LGDJ.
Ferenczy, M.A.V.H., 2022. Paradigma andino no Pluriverso: sementes para os caminhos da biodiversidade e dos conhecimentos rivais no direito ambiental internacional [online]. Ph.D. Thesis. Cotutelle between Universidade de São Paulo (USP) and Università Degli Studi di Ferrara (UniFe/Italia). Disponível em: https://doi.org/10.11606/T.84.2023.tde-10052023-124045 DOI: https://doi.org/10.11606/T.84.2023.tde-10052023-124045
Ferenczy, M.A.V.H., e Barreto, N.L., 2016. Regulamentação ética do novo marco legal da biodiversidade: re-pensando o termo consentimento prévio informado previsto na lei em busca do consentimento livre e esclarecido. Em: A.H. Benjamin, ed., Jurisprudência, ética e justiça ambiental no século XXI. São Paulo: Instituto o Direito por um Planeta Verde/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
Flórez Alonso, M., 1998. Regulaciones, espacios, actores y dilemas en el tratamiento de la diversidad biológica y cultural. Em: Instituto Latinoamericano de Servicios Legales Alternativoss (ILSA) et al., eds., Diversidad Biológica y cultural – retos y propuestas desde América Latina. Bogotá: ILSA, pp. 29–44.
Koch, I., 2018. Turning Human Beings into Lawyers’: Why Anthropology Matters So Little to the Legal Curriculum. Journal of Legal Anthropology [online], 2(2), 99–104. Disponível em: https://doi.org/10.3167/jla.2018.020210 DOI: https://doi.org/10.3167/jla.2018.020210
Kopenawa, D., e Albert, B., 2015. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami [online]. São Paulo: Schwarcz. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4886744/mod_resource/content/1/A_QUEDA_DO_CEU.pdf
Kothari, A., et al., eds., 2019. Pluriverso – un diccionario del posdesarrollo [online]. Barcelona: Icaria. Disponível em: https://icariaeditorial.com/ashish-kothari/10-pluriverso-un-diccionario-del-posdesarrollo.html
Krenak, A., 2020. O amanhã não está à venda. São Paulo: Companhia das Letras.
Le Roy, É., 1998. L’hypothèse du multijuridisme dans un contexte de sortie de la modernité. Em : A. Lajoie et al., eds., Théories et émergence du droit: pluralisme, surdétermination et effectivité. Bruxelas: Thémis/Bruylant, pp. 29–43.
Le Roy, É., 1999. Le jeu des lois: une anthropologie “dynamique” du Droit: avec des consignes et des conseils au “jeune joueur juriste”. Paris: LGDJ.
Le Roy, É., 2004. Pour une anthropologie de la juridicité. Em: É. Le Roy, ed., Anthropologie et droit: intersections et confrontations. Paris: Karthala, pp. 241–247. (Cahiers d’Anthropologie du Droit.)
Le Roy, É., 2013. Place de la juridicité dans la médiation. Jurisprudence – Revue Critique, n. 4 (La médiation. Entre renouvellement de l’offre de justice et droit), pp. 193–208.
Le Roy, É., 2017. Une juridicité plurielle pour le XXe siècle. Saarbrücken: Éditions Universitaires Européennes.
Leite, J.R.M., 2017. Introduction. Em: E. Moreira, N. Miyasaka Porro e L. Silva, eds., A “nova” Lei n. 13.123/2015 no velho Marco Legal da Biodiversidade: entre retrocessos e violações de direitos socioambientais [online]. São Paulo: IDPV, 27–31. Disponível em: http://www.planetaverde.org/arquivos/biblioteca/arquivo_20170303100927_2758.pdf
Malinowski, B., 2003 Crime e costume na sociedade selvagem. Trad.: M.C. Corrêa Dias. Brasília: Editora Universidade de Brasília/São Paulo: Imprensa oficial do Estado.
Martins, T., e Almeida, N.T., 2017a. Previsões de isenções em razão do “acessante”. Em: E. Moreira, N. Miyasaka Porro and L. Silva, eds., A “nova” Lei n. 13.123/2015 no velho Marco Legal da e: entre retrocessos e violações de direitos socioambientais [online]. São Paulo: IDPV, 162–163. Disponível em: http://www.planetaverde.org/arquivos/biblioteca/arquivo_20170303100927_2758.pdf
Martins, T., e Almeida, N.T., 2017b. Violação ao direito à repartição justa e equitativa de benefícios. Em: E. Moreira, N. Miyasaka Porro e L. Silva, eds., A “nova” Lei n. 13.123/2015 no velho Marco Legal da Biodiversidade: entre retrocessos e violações de direitos socioambientais [online]. São Paulo: IDPV, 137–145. Disponível em: http://www.planetaverde.org/arquivos/biblioteca/arquivo_20170303100927_2758.pdf
Monteiro, I.A.P., Leite, V.L.M., e Araújo, B.F., 2017. Violação do direito ao consentimento livre, prévio e fundamentado na lei nº 13.123/2015. Em: E. Moreira, N. Miyasaka Porro e L. Silva, eds., A “nova” Lei n. 13.123/2015 no velho Marco Legal da Biodiversidade: entre retrocessos e violações de direitos socioambientais [online]. São Paulo: IDPV, 126–136. Disponível em: http://www.planetaverde.org/arquivos/biblioteca/arquivo_20170303100927_2758.pdf
Moreira, E., Miyasaka Porro, N., e Silva, L., eds., 2017. A “nova” Lei n. 13.123/2015 no velho Marco Legal da Biodiversidade: entre retrocessos e violações de direitos socioambientais [online]. São Paulo: IDPV. Disponível em: http://www.planetaverde.org/arquivos/biblioteca/arquivo_20170303100927_2758.pdf
Muelas Hurtado, L., 1998. Acceso a los recursos de la biodiversidade y pueblos indígenas. Em: Instituto Latinoamericano de Servicios Legales Alternativoss (ILSA) et al., eds., Diversidad Biológica y cultural – retos y propuestas desde América Latina. Bogotá: ILSA, 29–44.
Recomendação Ministério Público Federal n. 94/2015. Referência IC n. 1.16.000.001457/2015-19 (PR-DF-00033196/2015).
Santilli, J., 2004. Conhecimento tradicional associado à biodiversidade: elementos para a construção de um regime jurídico sui generis de proteção. Em: A.F. Platiau e M. Varella, eds., Diversidade biológica e conhecimentos tradicionais. Belo Horizonte: Del Rey, 341–369.
Santilli, J., 2015. Biodiversidade e conhecimentos tradicionais associados: o novo regime jurídico de proteção. Revista de Direito Ambiental, 20(80), 259–285.
Silva, L.A.L., e Dallagnol, A.H., 2017. Violação do direito à consulta prévia no processo de elaboração da lei: vício congênito. Em: E. Moreira, N. Miyasaka Porro e L. Silva, eds., A “nova” Lei n. 13.123/2015 no velho Marco Legal da Biodiversidade: entre retrocessos e violações de direitos socioambientais [online]. São Paulo: IDPV, 117–125, Disponível em: http://www.planetaverde.org/arquivos/biblioteca/arquivo_20170303100927_2758.pdf
Villas Bôas Filho, O., 2007. A constituição do campo de análise e pesquisa da antropologia jurídica. Prisma Jurídico [online], 6, 33–349. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/934/93400620.pdf DOI: https://doi.org/10.5585/prismaj.v6i0.1149
Villas Bôas Filho, O., 2014. Juridicidade: uma abordagem crítica à monolatria jurídica como obstáculo epistemológico. Revista da Faculdade de Direito da USP [online], vol. 109, 281–325. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rfdusp/article/view/89235 DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2318-8235.v109i0p281-325
Villas Bôas Filho, O., 2015. A regulação jurídica para além de sua forma ocidental de expressão: uma abordagem a partir de Étienne Le Roy. Revista Direito e Práxis, 6(12), 159–195. DOI: https://doi.org/10.12957/dep.2015.16050
Villas Bôas Filho, O., 2016. A juridicização e o campo indigenista no Brasil: uma abordagem interdisciplinar. Revista da Faculdade de Direito da USP [online], 111, 339–379. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rfdusp/article/view/133516 DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2318-8235.v111i0p339-379
Villas Bôas Filho, O., 2017. A mediação em um campo de análise interdisciplinar: o aporte da teoria do multijuridismo de Étienne Le Roy. Revista Estudos Institucionais [online], 3(2), 1112–1162. Disponível em: https://doi.org/10.21783/rei.v3i2.205 DOI: https://doi.org/10.21783/rei.v3i2.205
Villas Bôas Filho, O., 2018. A análise antropológica no âmbito dos estudos sociojurídicos: aportes para a construção de um campo interdisciplinar. Revista Pensamento Jurídico [online], 12(2), 9–38. Disponível em: http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/documentacao_e_divulgacao/doc_biblioteca/bibli_servicos_produtos/bibli_boletim/bibli_bol_2006/Rev-Pensamento-Jur_v.12_n.2.01.pdf
Villas Bôas Filho, O., 2019. Desafios da pesquisa interdisciplinar: as ciências sociais como instrumentos de “vigilância epistemológica” no campo dos estudos sociojurídicos. Revista Estudos Institucionais [online], 5(2), 530–558. Disponível em: https://doi.org/10.21783/rei.v5i1.301 DOI: https://doi.org/10.21783/rei.v5i1.301
Villas Bôas Filho, O., 2021. Bronislaw Malinowski e Alfred R. Radcliffe-Brown: duas concepções paradigmáticas da antropologia jurídica. Revista Direito Mackenzie [online], 15(3), 1–16. Disponível em: https://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/rmd/article/view/15054 DOI: https://doi.org/10.5935/2317-2622/direitomackenzie.v15n314764
Wainer, A.H., 1993. Legislação ambiental brasileira : evolução histórica do direito ambiental. Revista de informação legislativa, 30(118), 191–206.
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2024 Marina Andrea von Harbach Ferenczy, Vivian Grace Fernández-Dávila Urquidi

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Sortuz: Oñati Journal of Emergent Socio-Legal Studies provides immediate open access to all its content on the principle that making research freely available to the public supports a greater global exchange of knowledge.
All articles are published under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Copyright and publishing rights are held by the authors of the articles. We do, however, kindly ask for later publications to indicate Sortuz as the original source.









